Estamos num ano que se comemora , os 75 anos de uma entidade que foi o meu " berço ". O Colégio onde nascem os verdadeiros " Piratas do bem Brasileiros " ... conhecido oficialmente como :
COLÉGIO NAVAL.
Em função desta comemoração , eu , como "cria" desta instituição resolvi " piratear " um texto escrito por colegas Piratas sobre o evento que me permito transcrever autorizado pelos autores amigos Piratas. Desfrutem o texto abaixo :
75 anos – Uma viagem no túnel do tempo
CMG (Ref IM) Sergio Henrique Barbosa de Oliveira
Presidente da ATAC
CMG (Ref FN) Jorge de Oliveira Carlos
Vice Presidente da ATAC
CMG (Ref CA) Claudio da Costa Braga
Turma de 1971 – 1128/2128
Poxa...Jubileu de Brilhante, uau.......já se vão 75 anos do nosso Colégio Naval, nós turma, a Turma Aspirante Conde, que cursamos nos anos de 1971 a 1972.
Parece que foi ontem!!! Já se vão 55 anos quando muitos tinham completado quatorze anos e hoje, passadas essas décadas, esses não tão velhos assim, Homens do Mar, com a certeza do dever cumprido, retornam a esta bela enseada Batista das Neves. Viajar no tempo e relembrar episódios marcantes de nossas vidas, relembrar dos nossos mestres e instrutores que tiveram papel relevante em nossas formações, relembrar algumas histórias pitorescas da época e deixar registrado para a eternidade nosso texto na Revista Classis Spes.
Então, entrando no túnel do tempo, começamos com um domingo pela manhã, no início de fevereiro de 1971, aglomerados em frente ao Edifício Tamandaré aguardando o embarque em ônibus especiais fretados que nos conduziriam para o Colégio Naval. Sem percebermos, ali, começava a rotina dos nossos ônibus especiais, divididos por bairros e cidades no Rio de Janeiro, além dos que iam para São Paulo e outros Estados, por ocasião dos futuros licenciamentos.
Na chegada em Angra, tudo era novidade: o pavilhão imponente do torreão do Colégio, a recepção pelo Comandante, Oficiais e Adaptadores Alunos, a entrada no pátio interno em uma formatura meio que a “paisana”, o orgulho de ter sido aprovado em concurso tão disputado, com o brilho nos olhos de alegria e um misto de interrogação pelo que viria.
Aos concursados do Rio de Janeiro e Niterói somaram-se
“A Paulistada”
e os “Aratacas”, termo carinhosamente dado aos nordestinos que somente passamos a entender um pouco mais adiante por ocasião dos licenciamentos
A partir daí tem início nossa história: começamos a conviver com pessoas dos mais diversos rincões do Brasil, com suas culturas regionais, sotaques distintos, todos imbuídos de um espírito que o tempo iria consolidar em amizades sinceras, puras e que persistem até os dias de hoje.
Poderíamos classificar como “Espírito de Corpo”. A UNIÃO, É O ALICERCE DA NOSSA TURMA QUE NOS SUSTENTA. Jargão que passou a acompanhar a Turma Aspirante Conde até os dias de hoje.
Voltando ao passado:
Tudo era novidade, a começar pelo linguajar naval: recebemos nossas “andainas de uniforme”....andainas...????, jacuba, bailéu, abrolhos, ceia e associado a ela, o famoso mate brochante e bolo aziático, bacalhau, hidráulica, caminho aéreo......enfim, um aprendizado de nomes na gíria naval que em pouco tempo estávamos familiarizados.
Falar sobre os episódios marcantes de nossas vidas com certeza extrapolaria o número de palavras desse texto, mas várias delas deixaram marcas em nossas memórias, a começar com o toque de alvorada, onde os mais sonolentos não conseguiam dormir mais um pouco, sob pena de serem “papirados” pelo OSCA em sua revista. Na “rotunda, disputar local junto ao lavabo para nossa higiene matinal era um suplício, pois sempre tinha alguém no seu “cangote” querendo ocupar o mesmo espaço.....
Após, tínhamos a formatura para o café da manhã e a seguir as salas de aulas, onde passávamos a conhecer nossos “Mestres” e a respeitá-los. Quem não se lembra da ordem de “levantai-vos” proferida pelo chefe da classe. Nossas aulas duravam até a hora do almoço, ocasião em que ao seu término, formávamos no pátio interno para, cheios de fome, irmos ao rancho, onde muitos dos seus cardápios não eram do agrado de todos. Que o diga as “iscas de fígado”, “frango atropelado” e outras culinárias de nomes que nos acompanharam em nossas carreiras.
Findado o rancho, tínhamos algumas poucas horas de lazer para colocarmos nossas tarefas em dia, cortar cabelo, cartas para as namoradas, enfermaria, fazer o rol das roupas para serem lavadas e depois apanhá-las na lavanderia. Além disso, quando calouros, tínhamos que ter o cuidado de não sermos “carteados pelos veteranos” para outras fainas avulsas.
À tarde alguns iam para o TFM e outros para o treinamento em suas respectivas equipes esportivas representativas do Colégio, ocasião em que os treinamentos permitiam uma maior aproximação do binômio calouro x veterano, possibilitando a realização de novas amizades.
Após, tínhamos a formatura do rancho para o jantar e depois o estudo obrigatório, que muitas das vezes eram suplícios para os calouros uma vez que, quando o OSCA “dava mole”, os veteranos faziam a festa nos trotes aos calouros.
Depois, ceia quando eram servidos o “mate brochante” acompanhado do bolo “aziático” ( referente a azia e não à Ásia) e por fim o esperado toque de silêncio. Era a hora do descanso para alguns, mas estudos adicionais para outros, a maioria em decorrência das rígidas exigências escolares.
Mais nem tudo eram exigências, pois logo chegavam os licenciamentos, onde nos finais de semana o Corpo de Alunos tinha a cidade de Angra a seu dispor e quinzenalmente, licenças para o Rio de Janeiro, onde residiam a maioria dos alunos. A “Paulistada”, mais complicada, por conta da distância e os Aratacas, também chamados de “Bodames”, por estarem longes de suas cidades natal só retornavam a seus lares nas férias escolares.
Sobre Angra dos Reis, cidade dos Reis Magos, acolhedora com suas águas cristalinas, baia da Ilha Grande e suas 365 ilhas, uma por dia, marcaram muito nossas memórias.
Como não lembrar das saídas de canadenses e snipes, da praia de Aquidabã, ponto de encontro com as “Minas Angrenses”, chopinho do Bambu, bailinhos no Comercial, Vera Cruz e Farracho, sem antes comer uma pizza deliciosa na Bambina, existente até os dias de hoje.
Não lembrar dos bailes promovidos pela SAG com as escolas de Barra Mansa, Volta Redonda, Instituto de Educação do Rio de Janeiro e nosso famoso conjunto musical “Carteasom”.
As competições esportivas contra o CMRJ, EMMRJ, CSN, EN e NAE.
O tempo passando, provas e ao final encerramento do ano letivo com a simbólica e não mais importante Passagem da Cana do Leme, onde deixaríamos de ser calouros passando a condição de veteranos no ano seguinte
Após nossas férias regulamentares,
já totalmente ambientados a rotina e vida naval, com nossos pensamentos voltados para a tão sonhada Escola Naval, recebemos os novos calouros tendo como propósito maior orientar e principalmente, com o exemplo, transmitir a nova turma os ensinamentos apreendidos, conquistados e vivenciados.
Aula , novos professores no segundo ano, mesma rotina, mais orgulhosos por sermos os “donos” do Colégio Naval. A par das brincadeiras sadias com nossos “Calouros”, éramos respeitados, sensação única que tínhamos que manter junto aos nossos superiores, pares e subordinados.
Assim, o tempo foi passando, os acontecimentos foram se repetindo na maioria das vezes, entremeados com um fato novo, como viagem de instrução a bordo do CL Tamandaré e CT Benevente, chegando então ao término do ano letivo com a certeza do dever cumprido.
A Passagem da Cana do Leme, somado ao almoço dos 30 dias nos levava a sonhar com o tão esperado espadim, símbolo do Aspirante da Marinha de Guerra,
mas, isso é outra história, outro capítulo, pois a Turma Aspirante Conde, formada GM em 13 de dezembro de 1976, ira completar 50 anos em dezembro do corrente ano.
Obrigado! Colégio Naval, somos gratos pela formação intelectual, física e moral que nos proporcionou.
Foi Você, valorosa Instituição de Ensino Militar Naval, que forjou nosso espírito marinheiro entre outros atributos dos Homens do Mar.
Viva o Colégio Naval
Parabéns pelos seus 75 anos
Viva a Marinha
Viva o Brasil
TUDO PELA PÁTRIA
QUIRICOMBA ZEPELIN………...
Dito isso , procurei " temperar" o texto original dos meus amigos, com imagens do arquivo pessoal " piratesco alado". A razão para tal, foi aproveitar o " gancho literário " para mostrar nos dias atuais , como são divulgadas algumas falácias, sobre o período dos anos 70 de regime militar . Falam muito sobre " censura " na época... Sobre isso as imagens mostram que os " pensamentos e críticas eram LIVRES.
Por outro lado, demonstram que a vida militar enalteciam a " União " de cidadãos, independente de raça, cor , religião, culturas regionais e seja lá qualquer opção sexual , política ou esportiva. Neste Colégio, aprendiamos principalmente respeito, disciplina, ordem e alternativas de vivermos em sociedade com liberdade defendendo nosso enorme País. Foi lá que conheci os meus verdadeiros irmãos...aqueles que por " opção " compartilham os mesmos " valores" morais , intelectuais e... filosóficos. Para tanto, temos que ter coragem para encarar desafios que , normalmente, a vida nos apresenta. Isso é uma " opção individual" ... não uma imposição social. Não é " fácil ".... mas é moralmente, ( não financeiramente ) ...compensadora.
Quem passou por este Colégio...tem orgulho. ( não tenho a menor dúvida). Dedico este post a todos irmãos , por opção, que tiveram a coragem, na sua adolescência, de fazerem essa opção.
Classis Spes
Aos queridos leitores...o sincero abraço do
Veterano Pirata Alado.
