quarta-feira, 26 de abril de 2023

Pirata....e o GAIBU

Amigos da Pirataria Alada , meu cordial OLÁ

Este post é mais um agradecimento a RMB (Revista Marítima Brasileira ), que em sua edição V.143 n°01/03 janeiro/março 2023, publicou na "O LADO PITORESCO DA VIDA NAVAL " o texto abaixo de autoria do meu amigo Comandante Barreira. Além de publicação oficial da Marinha do Brasil centenária, antes do evento "internet", sempre foi uma referência de artigos técnicos e históricos de credibilidade para leitores interessados em assuntos ligados ao MAR ( sendo Piratas ou não),

Assim sendo reproduzo , o artigo da RMB , incluindo algumas fotos do arquivo do Pirata Alado


 GAIBÚ ... Lenda ou Mito?  

 Esta é a história de como nasce uma Lenda (ou um Mito)

Vivíamos tempos difíceis nos anos 80.

Eu fazia parte do HA-1 (1° Esquadrão de Helicópteros de Esclarecimento e Ataque Anti-Submarino ) da Força Aeronaval.


Naquela época o HA -1 operava as aeronaves SAH-11 Sea Lynx, há pouco, adquiridos pela Marinha para comporem o sistema de armas das novíssimas Fragatas classe Niterói. Como projeto novo que operava com motores GEN 2 Rolls Royce, os Lynx sofriam pela pouca “experiência”, causando alguns “sustos” em voo aos seus tripulantes, como apagamento em situações desagradáveis (voando em cima d’agua por vezes à noite). Esses sustos causavam algum “receio” aos tripulantes, que nos obrigava, buscar um incentivo suplementar para cumprirmos nosso dever de militares profissionais ... “destemidos “.


Depois de muitos esforços técnicos visando melhorar o desempenho dos nossos motores, o Comandante do Esquadrão, CF Chrockatt, a luz de sua experiência na Inglaterra, determinou uma divisão de sua tripulação em DAEs (Destacamentos Aéreos Embarcados) inspirado na operatividade da Royal Navy. Dessa forma, cada DAE ficaria responsável por duas aeronaves, tanto no aspecto operativo quanto na manutenção das Aeronaves.

O 3° DAE foi composto inicialmente, pelos CT Albuquerque Lima, CT Postarek , CT Barreira, SG Willian, SG Basílio, CB Mathias, .... e mais alguns Cabos e Marinheiros que me desculpem não lembrar seus nomes, passados mais de 40 anos. Seríamos responsáveis pelos Lynx 3025 e Lynx 3026.



Todos trabalhavam com afinco por horas visando garantir, além de eficiência operativa a melhor e confiável manutenção, garantindo acima de tudo segurança a nossa atividade aérea em condições de alto risco. Todos nós precisávamos de alguns momentos de descontração e orgulho pelo trabalho que todos realizavam. Quando uma de nossas aeronaves (Lynx 3026) foi a primeira a completar 1.000 horas de voo, foi motivo de muito orgulho para toda equipe do 3° DAE.  Resolvemos fazer uma pequena comemoração intima batizando a “nossa” aeronave com um nome próprio para ressaltar a sua eficiência.

Depois de algumas conversas, resolvemos criar um nome que resumisse as qualidades de voo de nossa aeronave, tanto sobre a superfície marítima (tal qual uma GAIVOTA), quanto sobre solo terrestre (tal qual um URUBÚ). A união romântica, das duas aves, gerou o nome de uma máquina de guerra hibrida, o GAIBÚ, mantida e operada por homens inoculados pelo “sangue de lince”!

Não bastaria apenas um nome. Seria necessário que houvesse uma “lenda “que sustentasse o nome. Assim sendo me dispus a” deitar letras sobre papel “antes da cerimônia de batismo e criei a “LENDA do GAIBÚ “.

“Diz a lenda que certo dia, uma garbosa e alva, gaivota exibia sua destreza e finesse de voos rasantes sobre os mares bravios, em quaisquer condições de tempo (e mar), principalmente sobre o Atlântico Sul. (há quem afirme que seria descendente de Fernão Capello Gaivota de Richard Bach). Neste dia, num dos voos próximos a região montanhosa do litoral fluminense, mais especificamente dos morros do Pão de Açúcar e Corcovado, observou um orgulhoso Urubu Rei, de brilhantes penas negras sobre uma penugem branca na parte abdominal, que pairava se exibindo, numa térmica sobre a região da Gávea. Em que pese as diferenças físicas e de coloração das plumagens, houve uma admiração mútua. Cansadas da atividade aérea, coincidentemente, as duas aves resolveram pousar lado a lado para descanso na copa da mesma Palmeira Imperial do Jardim Botânico carioca. O que ocorreu na Copa da Palmeira Imperial não se sabe, mas que esse encontro gerou um ser alado acinzentado de barriga branca, muito forte e determinado quando rompeu a casca do ovo as margens da Lagoa de Araruama, isso é fato indiscutível. Era um animal híbrido com características muito particulares. Corajoso, agressivo e ao mesmo tempo justo e defensor de mais fracos. Dominava com perfeição a arte de voar sobre terra e principalmente sobre o mar, mesmo se mantendo pairado no ar. Sua perspicácia, flexibilidade e rapidez, o levou a ser comparado a um Lince .... Assim nasceu o GAIBÚ   o filho da Gaivota e do Urubu.

Iniciamos a Cerimônia de Batismo do Lynx 3026. Todos do 3°DAE compareceram ao lado da aeronave no hangar do HA-1, portando seus macacões de voo quando o chefe do DAE, CT Albuquerque Lima iniciou solicitando que eu lesse a LENDA do GAIBÚ. Cumpri a minha parte na cerimônia que todos ouviram silenciosa e respeitosamente. Ao término da leitura, um dos Marinheiros do DAE, recém embarcado me chamou de lado e disse:

“- Chefe ... estou cursando “Letras” na Faculdade de Cabo Frio a noite ... e ontem tivemos uma aula sobre mitologia Grega. Eu adorei a aula e me interessei pelo tema. Por causa disso, gostaria de saber mais sobre a interessante Lenda do Gaibú . O Senhor sabe se ela pertence a alguma dessas mitologias que estou estudando?

Confesso que fiquei sem saber o que responder. Por alguns segundos fiquei curtindo um prazer solitário degustando aquela pergunta sobre a minha “obra literária” e respondi:

“- Seja bem-vindo ao 3° DAE, marujo...não sei se esta lenda pertence a alguma mitologia ..., mas descobriremos, quem sabe antes da 3026 completar 10 mil horas de voo. Vamos juntos colar o adesivo GAIBÚ na aeronave.... e comer bolo com guaraná ....”

Hoje, mais de 40 anos se passaram ...e não sei mais, quantas horas de voo realizou o Lynx 3026 pelo mundo defendendo as cores da Marinha do Brasil ... quantas vidas ajudou a salvar ... por quantas atualizações técnicas passou ...e principalmente, no que se transformou o GAIBÚ ... se LENDA ou MITO.